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Nesta sexta-feira (27), na abertura do ano letivo da Escola Judicial do TRT-PR, o professor Caetano Waldrigues Galindo, autor do livro "Latim em pó", apresenta a palestra "Falar com os outros, dizer quem somos".
Explica Galindo: "A ideia está mais ou menos enquadrada nesse esforço do Judiciário como um todo – e da magistratura em particular – de simplificar a linguagem, ampliar o potencial de comunicação e evitar aquela necessidade quase de 'tradução' das sentenças para os próprios interessados".
O palestrante é professor de linguística na Universidade Federal do Paraná (UFPR), tradutor de obras de autores como James Joyce e J.D. Salinger. Como escritor, além de “Latim em pó”, ele publicou “Sim, eu digo sim: uma visita guiada ao Ulysses de James Joyce” e, mais recentemente, “Na ponta da língua”, todos pela Companhia das Letras.
Com a tradução de “Ulysses” – em edição publicada em 2012 –, Galindo venceu os prêmios da Academia Brasileira de Letras (ABL), da Associação Paulista de Críticos de Artes (APCA) e o Jabuti.
Na entrevista a seguir, o escritor fala sobre como se comunicar é mais do que veicular conteúdos, "é conversar com as pessoas e dar-se a ouvir".
Você poderia falar um pouco sobre o tema da sua palestra “Falar com os outros, dizer quem somos”?
A ideia está mais ou menos enquadrada nesse esforço do Judiciário como um todo – e da magistratura em particular – de simplificar a linguagem, ampliar o potencial de comunicação e evitar aquela necessidade quase de “tradução” das sentenças para os próprios interessados.
A dra. Simone [Galan de Figueiredo, coordenadora pedagógica da Escola Judicial] comentou algo que ficou muito comigo quando estive aí da última vez: não é só a linguagem. É também a arquitetura dos tribunais. O quanto essas sedes são imponentes, formais – às vezes até expulsivas, pouco acolhedoras. O quanto toda a estrutura do Judiciário foi pensada, historicamente, para marcar distância, para marcar superioridade. Um ideário muito reconhecível do século XIX e início do XX: é preciso valorizar, separar essas figuras, colocá-las acima da malta, da patuleia.
Mas hoje, numa sociedade como a nossa, há um esforço maior de aproximação: levar isso para perto da população, acolher, permitir que as pessoas entendam, conversem, contestem inclusive – que saibam o que está acontecendo.
Qual é o papel da linguagem nesse esforço de aproximação?
A linguagem é instrumento de comunicação, sim, mas também é parte de um aparato simbólico e social de delimitação de espaços. De abertura, mas também de afastamento. De inclusão, mas também de exclusão.
No Brasil – e na história do português brasileiro e da formação da nação – consolidaram-se estruturas muito cruéis nesse sentido: estruturas que confirmam e perpetuam exclusões. Um movimento como esse vai na contramão disso tudo. Não se trata apenas de dizer o conteúdo necessário – não é só comunicar em sentido estrito –, mas comunicar em sentido amplo: conversar com as pessoas, dar-se a ouvir.
E isso altera a imagem projetada. Porque, quando usamos a linguagem, raramente estamos apenas veiculando conteúdos. Estamos sempre projetando uma imagem de nós mesmos, esperando causar uma impressão, demarcar uma posição. A linguagem constrói lugar.
Pensar nisso de maneira responsável – politicamente responsável – tem, eu diria, um potencial revolucionário.
Serviço
Abertura do Ano Letivo da Escola Judicial
Dia: 27 de março, das 14h às 17h (credenciamento a partir das 13h15)
Local: Plenário Pedro Ribeiro Tavares, na sede do TRT-PR (Alameda Doutor Carlos de Carvalho, 528, em Curitiba)
Outras informações no site da Escola Judicial (AQUI).